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CONTO

TRANSPLANTE ÓSSEO NA REAL


*Larissa Jansen








....Um raio não cai duas vezes no mesmo lugar. A gente cresce ouvindo falar desse ditado popular. Mentira. Cai sim. E pode matar, tanto da primeira quanto da segunda vez! Comigo foi assim. O raio caiu na minha casa aos sete anos, mesmo com pára-raios. Eu morri, mas sabe que vivi de novo! Aos 26 anos o diacho do raio caiu de novo, mas aí foi só em cima de mim, não da minha família. O brasileiro é um povo assim, não desiste nunca! Eu não sou diferente. Morri e aqui estou, de novo, para explicar.

....Era uma criança saudável até meus sete anos de idade, brincava, fazia jazz, uma menininha bem levada! Aí, já de férias, no parquinho do prédio de minha amiga, me senti enjoada e com febre. Pedi para deitar e só me levantei dois meses depois, quando me diagnosticaram com artrite reumatóide juvenil, um tipo de reumatismo que ataca crianças de 0 a 16 anos, na grande maioria mulheres. Sintomas: febre, dor e inchaço nas articulações, deformidades ósseas nos casos graves, osteoporose. Muitos anos se passaram, me acostumei a nova realidade, tratei-me em um centro de referencia mundial um vez que meu caso é raríssimo. Aos 16 anos, já sem mobilidade alguma na maior das juntas do corpo humano – o quadril – optei por inserir próteses, a ATQ – prótese total de quadril. E vida nova! Alem de recuperar os movimentos do quadril e, o melhor, eliminar as dores nesta articulação, pude voltar a dançar, aprendi a dirigir, subia e descia escadas, cruzava as pernas (inimaginável desde que descobri a artrite!)... Tudo ia bem até que, já em 2002, com fortes dores, comecei a procurar um médico, aqui no Brasil, capaz de me operar. Em 2005 achei essa equipe, que hoje cuida de mim. E o raio do raio caiu de novo em minha cabeça – precisei de DOIS TRANSPLANTES.

....Você já ouviu falar que transplante de osso existe? Pois é, nem eu, até então. Mas transplante de ossos existe e hoje o Brasil é detentor de um dos maiores sistemas de transplantes público do mundo. No entanto, com osso é diferente. Neste exato momento, cerca de 1000 pessoas esperam um doador no Rio de Janeiro, o único dos cinco bancos de ossos brasileiros que é gratuito 100%, pelo Sistema Único de Saúde. Doar ossos é possível, e uma doação pode ajudar a até 30 pessoas. O cadáver é reconstruído e pode ser enterrado sem prejuízo algum. Lembre-se: um dia pode ser você, com o raio na sua cabeça, precisando de um novo coração, uma pele, uma córnea, um rim, um fígado.... Doe ossos. Doe qualidade de vida.

....Quem conta um conto aumenta um ponto, mas juro que, por falar de saúde pública, que está a beira da perfeição aqui no Brasil, não vou me alongar não. Destaco apenas para, quem quiser se alongar no assunto, que o Tribunal de Contas da União (TCU) publicou o Relatório de Avaliação do Programa Doação, Captação e Transplante de Órgãos e Tecidos referente ao período plurianual até 2007. O Relatório procurou ver a realidade de um universo – São Paulo, Bahia, Goiás, Pará, Pernambuco e Distrito Federal -, para tentar encontrar soluções para o restante do Brasil. A auditoria do TCU percebeu um gargalo no Sistema Nacional de Transplantes, incluindo possibilidade de fraudes na parte informatizada do sistema, despreparo de informação de alguns profissionais que trabalham com o assunto e outros itens.

....A auditoria aponta que a Organização Mundial de Saúde indica que “os aspectos éticos dos transplantes de órgãos enfatizam questões como a doação voluntária e a não-comercialização. No entanto, o Brasil possui CINCO (5) BANCO DE OSSOS ONDE SE PAGA PELO OSSO e apenas um banco gratuito. E há outros bancos, além deste gratuito, que são do Estado... A própria legislação dos transplantes fala do caráter da doação... então, porquê esses bancos de ossos cobram pela armazenagem do osso, exceto esse do SUS? Como assim??? Para pensar, amigo leitor. Vale lembrar que o SUS é uma política pública complexa – envolvendo esforços dos Governo Federal, Estadual e Municipal. E, portanto, os gargalos do Programa de Transplantes também precisam de ações em conjunto. Mas quem conta um conto aumenta um ponto...


* Jornalista, Escritora e Analista Judiciário – SJDF.

Para falar com Larissa Jansen escreva para lalajansen@yahoo.com.br ou acesse www.transplanteosseo.wordpress.com





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Justiç@
- Revista Eletrônica da Seção Judiciária do DF.................N. 2 • Ano I • Maio/2009